Aprendendo a enxergar beleza em meio às cicatrizes da guerra

Angola
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Como uma jornada por uma terra devastada pela guerra mudou a mente de um acadêmico
Por Jurgens Hendriks

m 12 de agosto de 2021, o escocês Andrew Walls, historiador da igreja e missiologista, morreu aos 93 anos. Ele conhecia e entendia a história e o povo da África — e se importava com ambos. Walls abriu meus olhos para padrões históricos; ele nos ajudou a entender melhor a Bíblia. Foi seu trabalho que acabou alterando fundamentalmente minha perspectiva sobre o corpo global de Cristo.

Walls fez duas observações profundas ao resumir a obra fenomenal de Kenneth Scott Latourette, A History of the Expansion of Christianity. Primeiro, ele explicou que “a fé cristã deve continuar sendo traduzida, deve continuamente entrar na cultura local e interagir com ela, ou murcha e desaparece”. E segundo, “cruzar fronteiras culturais tem sido o sangue vital do cristianismo histórico” e “a energia para a travessia das fronteiras veio da periferia e não do centro”.

Enquanto eu mergulhava nos impactantes escritos de Walls, trabalhava como professor de estudos congregacionais e missiologia na Universidade de Stellenbosch, na África do Sul. Na época, eu estava envolvido em uma rede de escolas teológicas em rápida expansão pelo nosso continente, que se chamava Network for African Congregational Theology — ou NetACT, de forma abreviada. Em 2003, a NetACT recebeu um chamado do tipo “Passa à Macedônia, e ajuda-nos!”, para visitar e ajudar Angola.

Os portugueses começaram a negociar com os angolanos em 1560 e os subjugaram em 1590. Uma história de exploração, corrupção e tráfico de escravos continuou até 1960, quando os movimentos de libertação começaram a se rebelar, exigindo a independência. Essa luta continuou até 1975, quando os portugueses tiveram uma mudança de governo e a independência foi concedida a Angola.

O MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) conquistou o controle do país com o apoio de Cuba e da antiga URSS. Seu governo foi contestado pelo movimento UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), apoiado pela África do Sul e pelos Estados Unidos. Dezesseis anos de guerra civil se seguiram até um acordo de paz, em 1991. Depois, realizaram-se eleições, mas a UNITA não aceitou os resultados, o que fez com que os combates ressurgissem, persistindo até a morte do líder da UNITA, Jonas Savimbi, em 4 de abril de 2002. Os pais dos líderes dos três movimentos de independência eram todos pastores protestantes.

Em junho de 2004, a maioria das principais estradas angolanas, outrora repletas de minas terrestres, foram desobstruídas. Sete de nós, integrantes da NetACT, viajamos para Angola em um Land Rover e um veículo à prova de minas (que, para mim, se parecia muito com uma aranha de pernas compridas atravessando a estrada). Nosso objetivo era visitar igrejas e escolas teológicas. A viagem também coincidiu com um projeto de pesquisa em que embarquei. Eu fazia três perguntas, onde quer que encontrássemos cristãos angolanos: “O que aconteceu com a igreja durante os 40 anos de guerra? Cresceu ou diminuiu? O que aconteceu com a educação teológica?”.

O nosso primeiro encontro foi em Lubango, a maior cidade do sul da Angola. No dia seguinte à nossa chegada, tivemos um encontro matinal com os líderes da igreja. No entanto, seu porta-voz principal, que era fluente em inglês, estava atrasado. As lideranças locais insistiram que esperássemos a chegada do Pastor José Evaristo Abias, que foi secretário geral da UIEA (União de Igrejas Evangélicas de Angola) e presidente da AEA (Aliança Evangélica Angolana). Quando ele finalmente apareceu, seu rosto brilhava. Ignorando o protocolo, simplesmente tivemos que perguntar: “Algo aconteceu com o senhor, pastor; por favor, compartilhe conosco!”.

Ele assentiu e a história se desenrolou em palavras rápidas e jubilosas.

“Sou responsável pela repatriação de refugiados e ontem à noite recebi uma ligação informando que alguns caminhões de refugiados deveriam chegar esta manhã. Trinta e seis anos atrás, em 1969, quando eu tinha 15 anos, nossa aldeia foi atacada. No caos total que se seguiu, todos se dispersaram. Com o tempo, os membros da minha aldeia se reencontraram e sobreviveram em pequenos grupos em áreas rurais desabitadas. Nossa família também conseguiu se reencontrar. No entanto, minha irmã, Adelaide, estava desaparecida e nunca mais a encontramos nem ouvimos falar dela. Esta manhã, os caminhões chegaram da Zâmbia. Caixas foram colocadas para que os passageiros exaustos pudessem descer do caminhão. Eu vi uma mulher descendo. Ela me parecia tão familiar que eu não conseguia tirar os olhos dela. Quando se virou para se orientar, a mulher me viu olhando para ela. Ela hesitou e então, com passos lentos e incertos, começou a se mover em minha direção.

Com dificuldade, consegui pronunciar uma palavra: ‘Adelaide?!’

Ela começou a correr para mim e gritou: ‘José!’”

No silêncio que se seguiu à sua história, os olhos do pastor José estavam cheios de lágrimas, mas sua postura irradiava a maravilha dessa “ressurreição da morte”. Todos nós estávamos enxugando lágrimas dos olhos.

A cerca de 400 quilômetros ao norte de Lubango fica Huambo, a segunda maior cidade de Angola e o local onde ocorreram alguns dos piores combates durante a guerra civil. Começamos a nossa caminhada para a cidade numa manhã de sexta-feira. Tínhamos um compromisso no seminário naquela tarde, o último dia do semestre.

Logo percebemos que estávamos em apuros. O Google Maps e os celulares não funcionam na maior parte de Angola. Não havia placas na estrada. Nós simplesmente tivemos de seguir destroços de todos os tipos de veículos — especialmente os de tanques e outras máquinas de guerra. A estrada principal que liga Lubango a Huambo estava completamente esburacada e cheia de crateras provocadas pela explosão de minas terrestres. Ainda estávamos longe de Huambo, quando a escuridão nos alcançou numa simpática aldeia chamada Catata.

Para nossa surpresa, quando chegamos a Huambo, no final do dia seguinte, os funcionários e alunos da escola teológica não se incomodaram com o nosso atraso — eles nos receberam com música e dança. Rindo, eles nos disseram que era impossível viajar de uma cidade para outra em apenas um dia. Além disso, explicaram, não se importavam de nos esperar, pois éramos os primeiros visitantes estrangeiros que recebiam em muitos anos.

Ficamos alguns dias em Huambo e o diretor da escola insistiu em nos mostrar a cidade. Foi uma experiência traumática. A cidade estava devastada. Prédios e outras infraestruturas foram bombardeados e estavam em ruínas. Nada parecia estar funcionando; o esgoto corria a céu aberto em pequenos riachos ao longo das ruas e, eventualmente, em imundos rios de lixo. Eu mal podia suportar o cheiro de tudo aquilo. As vias estavam cheias de buracos, enquanto, acima delas, cabos de eletricidade se cruzavam. Eu nunca tinha visto tantas pessoas com membros amputados e outras cicatrizes físicas de guerra em toda a minha vida. Apesar disso tudo, o Pastor Alexandre dos Santos Mioco contava-nos alegremente histórias sobre a vida em Huambo.

Lutando para manter a compostura, nós o interrompemos com uma pergunta simples: “Como o senhor mora em uma cidade como esta?”

Houve um silêncio repentino. Pelos seu olhar, sentimos que ele não havia compreendido nossa pergunta — havia neles até mesmo traços de choque e mágoa. Depois de alguns segundos embaraçosos, ele respondeu: “Temos paz agora. Um ano atrás, ninguém nesta cidade estava seguro, todos os dias pessoas morriam aqui, vivíamos com medo…”

Levei muito tempo para entender a seriedade do que aconteceu naquela manhã: o pastor local e um grupo visitante de convidados estrangeiros estavam andando pela mesma cidade, voltando seu olhar para as mesmas visões e situações, mas nossas percepções eram radicalmente diferentes. Vindo da África do Sul, eu via apenas um caos total. O nosso amigo de Huambo, em contrapartida, via uma cidade livre do medo e da luta. Mais tarde, percebi que eu não estava realmente ouvindo nosso anfitrião. Na terminologia de Andrew Walls, eu não tive sensibilidade pastoral para cruzar as fronteiras interpretativas. Eu estava preso em minha própria estrutura [de interpretação]. Sem a capacidade de cruzar fronteiras, permanecemos em mundos à parte. E, no entanto, há esse constante convite para enxergarmos [o mundo] por meio dos olhos do outro.

Jurgens Hendriks

A nossa última parada foi no nordeste de Angola, em Kinkuni, na província do Uíge. Visitamos uma escola teológica reformada, o Instituto Teológico da Igreja Evangélica Reformada de Angola. Antes da independência, o governo colonial português e a Igreja Católica Romana tinham um acordo: as igrejas protestantes podiam operar em Angola, mas apenas uma denominação específica era permitida em cada província. A Igreja Reformada foi autorizada a atuar na província rural de Uíge, mas não em nenhuma das outras 17 províncias.

O seminário reformado de Kinkuni foi fundado em 1940 e destruído duas vezes. Primeiro em 1961, pelos portugueses (que se ressentiam da crítica dos protestantes às suas políticas coloniais). Depois que a igreja o reconstruiu, o seminário foi novamente destruído em 1978, desta vez pelas forças marxistas do MPLA após a independência (com base no fato de o cristianismo ter um efeito nocivo sobre o povo).

Fui convidado a falar aos alunos e funcionários na abertura do semestre da escola teológica. O título do meu artigo era: “O futuro da igreja e a igreja do futuro”. Um estudante com um rádio-gravador enorme estava na minha frente, gravando a apresentação. Quando terminei, a maioria dos funcionários e todos os alunos foram para fora do prédio. Eles ouviram a gravação debaixo de uma árvore próxima e uma discussão entusiasmada e ruidosa se seguiu.

Em Angola, sempre que eu perguntava sobre a formação teológica que esses alunos recebiam, a resposta era “formação de discipulado”. Eu realmente nunca entendia o que isso significava, mas desta vez pudemos ter uma explicação.

Foi-nos dito que era difícil — às vezes, impossível — receber educação teológica formal. Os líderes militares encarregados das províncias eram sobretudo marxistas e fortemente contrários ao cristianismo, o que significava que os crentes tinham de se reunir em segredo.

À medida que a igreja se adaptava [a esse contexto], três tipos de congregações se desenvolveram. Algumas realizavam reuniões formais da igreja em campos de refugiados em países adjacentes. Na maioria das cidades angolanas, membros de antigas congregações emergentes se reuniam em grupos menores, em casas ou sob árvores, disfarçados para parecerem reuniões comuns e informais de amigos. Outros, principalmente em áreas rurais, existiam como pequenos grupos que fugiam, se escondiam ou simplesmente sobreviviam e viviam da terra. Todos eles tinham pastores e todos os pastores estavam discipulando um ou dois membros do grupo para assumir [o trabalho], caso o pastor fosse morto ou os membros tivessem de fugir e acabassem separados uns dos outros. Em 2004, a maioria dos pastores das igrejas protestantes em Angola ainda recebia esse “treinamento de discipulado”.

Em todos os lugares a que ia, eu perguntava quantas congregações tinha uma determinada denominação e de quantos membros ela era composta. As respostas eram geralmente as mesmas. Eles riam, jogavam os braços para o ar e admitiam que não tinham a menor ideia. Estavam constantemente descobrindo novas congregações, agora que a guerra havia acabado, até mesmo em províncias distantes. A guerra havia espalhado os fiéis para além das fronteiras das províncias. Os refugiados de uma dada denominação e província ficavam muito agradecidos por encontrarem grupos de cristãos em outros lugares. As diferenças denominacionais eram a menor das preocupações.

Em retrospecto, sinto-me bastante envergonhado da minha mentalidade capitalista e acadêmica, que perguntava sobre o crescimento e o declínio da igreja, a fim de obter dados para escrever um artigo para uma revista teológica. No entanto, posso dizer em minha defesa, e felizmente, que tudo aconteceu durante um processo em que eu e meus colegas sul-africanos estávamos cruzando nossas próprias fronteiras, literalmente, nas estradas de Angola. No entanto, à medida que a jornada continuava, limites mais profundos — as nossas estruturas interpretativas obstinadas — foram descobertos, enfrentados e atravessados.

Viemos a conhecer e a amar pessoas que nos ensinaram sobre nós mesmos e nossas muitas deficiências. Entramos no território deles e eles entraram no nosso. Foi mutuamente benéfico. Na verdade, foi mais do que benéfico. Foi uma experiência essencial para entendermos sobre o que é o reino de Deus.

Uma das memórias mais marcantes da nossa viagem de 2004 à Angola foi que não havia presente que fosse recebido com mais exuberância do que uma Bíblia nova em português. Quanto mais se prolongava a guerra, mais preciosa a Palavra se tornava. Quando se chega “ao fim da linha”, a fé nos concentra em Deus e a Bíblia nos ajuda a ouvi-lo. Durante este tempo, a igreja angolana experimentou um crescimento espetacular. A fé adentrou na cultura local, na guerra e nas dificuldades, e ajudou pessoas a entenderem o que não tinha sentido, a sobreviverem no dia a dia.

Ensinar teologia em um contexto de sala de aula é um fruto do Iluminismo. Não acho mais que seja adequado somente preparar pastores para o ministério. Devemos seguir o exemplo de Jesus e ir até onde está a dor, até os “pobres”. Ser “rico” é algo que precisa ser redefinido. Fomos enriquecidos em Angola, em 2004 e desde então. Se cruzarmos fronteiras e interagirmos com as diferentes culturas locais, veremos o reino de Deus se revelando entre nós. Este reino não é uma busca acadêmica, e não é brincar de igreja ou com números denominacionais. É o poder de Deus em ação no meio do seu povo.

Fotografia da capa por Jessé Manuel
Traduzido por Mariana Albuquerque.
Editado por Marisa Lopes

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